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Eu nasci aos sete meses de gestação. Nos primeiros anos os médicos não sabiam o que eu tinha de errado, pois, com seis meses de vida eu não firmava a cabeça, aos doze não sentava, dezoito meses e nada de eu querer andar. Os médicos, inclusive os de São Paulo, achavam que esse atraso era causado pelo fato de eu ter nascido prematura e que, com o passar dos anos eu alcançaria um desenvolvimento normal. Dois anos e eu ainda nem sentava. As pessoas opinavam sobre o que meus pais deveriam fazer comigo, algumas falavam que uma criança como eu teria poucos anos de vida, outas diziam que eu não dava conta do que falavam ou acontecia ao meu redor e, tinham as que aconselhavam a me levarem aos mais diferentes médicos, médiuns e curandeiros.
Finalmente um médico de São Paulo resolveu investigar meu caso com mais cuidado. Então com dois anos através de raio-x descobriu-se uma lesão no cérebro, que posteriormente soubemos, fora causado por falta de oxigênio em algum momento anterior ou posterior ao parto. Este médico garantiu que eu tinha a inteligência normal e que compreendia perfeitamente o que se passava ao meu redor.
Em 1952, com quatro filhas, meu pai recebeu uma oferta de emprego para trabalhar como gerente de uma agência bancária no interior do Paraná. Ele aceitou e... fomos para em Santa Mariana, cidade de apenas uma rua, não havia médico nem hospital, a pessoa mais estudada tinha o curso ginasial (atual 1º grau) e dava aulas na escola estadual. Ela foi contratada para me alfabetizar, com aulas particulares. Nunca tentaram me colocar numa escola. As pessoas, inclusive meus pais, eram da opinião que deficiente como eu jamais poderia trabalhar, ter uma profissão ou independência financeira, social psicológica e física.
Com a família crescendo a cada dois ou três anos, passamos por situações das mais diversas, tivemos momentos muito difíceis e acontecimentos que nos deram satisfações e alegrias; de tudo isto conseguimos pontos positivos e, porque não, também negativos. Tudo faz parte da vida. depois de ter morado em várias cidadezinhas do interior paranaense e paulista, chegamos em São Paulo, em 1964, em plena Revolução. A entrada da cidade estava sendo vigiada pelos militares.
Enquanto criança, na esperança de poder andar, meus pais tentaram os mais diferentes tipos de terapia, desde simpatias até aos melhores médicos. A formação de profissionais na área de reabilitação, como fisioterapeutas e terapeutas-ocupacionais, é uma coisa recente ou pelo menos não era tão divulgada. Hoje, consciente de que tenho uma deficiência irreversível, me mantenho o mais ágil possível, fazendo fisioterapia com a assistência de um profissional.
Antes de entrar no movimento de deficientes, em 1982, eu achava impossível que uma pessoa portadora de limitações graves pudesse circular sozinha pela cidade em uma cadeira de rodas. Até então, eu nem tinha cadeira de rodas dobrável. Quando ia visitar parentes eu ficava sentada no sofá, quando tinham um, se não, me colocavam amarrada na cadeira ou na cama, isolada. Na casa dos meus avós eu me locomovia arrastando pelo chão, por todos os cômodos. Mesmo morando em cidades planas, como Araçatuba e Dracena, eu nunca tinha saído de casa para circular pelas ruas em cadeira de rodas.
Participando de um grande encontro, fui convidada a fazer parte da FCD - Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes. Comecei a sair de casa enfrentando críticas e censuras. Entretanto eu consegui conquistar a confiança dos meus pais e irmãos sem grandes brigas, uma discussãozinha aqui e ali, sempre tentando faze-los compreender que mais cedo ou mais tarde eu teria uma vida "própria". Lá fora também, no começo foi muito difícil, cheguei a pensar em abandonar a luta, mas depois de conhecer pessoas com limitações maiores e menores que as minhas e, pessoas sem deficiência apoiando a nossa luta, consegui vencer os preconceitos da sociedade e derrubar grande parte dos bloqueios existentes dentro de mim mesma e da família. O movimento de deficientes estava começando a acontecer, com o aparecimento de algumas entidades organizadas e dirigidas por nós. A partir da FCD, conheci outros grupos dos quais participei ou continuo atuando sempre que possível, como é o caso do Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes e outras frentes. No Grupo de Trabalho sobre Barreiras arquitetônicas do CMPD - Conselho Municipal da Pessoa Portadora de Deficiência, participei na elaboração e execução de vários projetos, do Congresso Brasileiro de Arquitetura fazendo um Painel sobre a problemática do deficiente nesta área, e de outros eventos.
Atualmente com a conquista de um espaço "maior", me sinto mais livre para atuar, em todos os sentidos.
Aparecida Akiko Fukai
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