O que é Cedipod? |  Inglês |  Francês |  Espanhol |  Informações Gerais

Legislação |  Estatísticas |  Documentos Internacionais |  Bibliografia

Notícias e Eventos |  Outros Sites |  Livro de Visitas |  Home


O BURRICO E A CENOURA

Às vezes é bom fazer um balanço e isso pode acontecer naturalmente, quando o silêncio convida a pensar.

É verdade que abrir um jornal é dar de frente com dificuldades, com coisas que gostaríamos de mudar, com outras, que, embora ruins não mudam mesmo, e por aí afora.

Mas, por outro lado, dá para tirar vantagem dos nossos tempos modernos, principalmente quando, como eu, se é uma pessoa portadora de deficiência? Pode ser uma surpresa dizer isso, mas dá sim, é possível aproveitar o progresso.

Antes de mais nada, para se chegar aí, é preciso deixar de correr e como a pessoa deficiente corre - atrás daquela terra desconhecida, maravilhosa e distante - a cura total, absoluta, onde todos são lindos e perfeitos. Qual a pessoa deficiente que não sonhou essa perfeição? Os caminhos são muitos, e passam pela fé, por tratamentos, remédios, cirurgias, todos os tipos de aparelhos, aquela possibilidade de consultar médicos no estrangeiro, etc, etc, etc......

Por favor, não quero ser contra a esperança, que além de ser, como todos sabem, a última que morre, é essencial para se progredir, inventar, criar, amar e ser amado. Sou, isso sim, a favor da realidade: é comum ver gente - como eu, durante muito tempo - deixando de fazer coisas, esperando aquele dia - "Quando você andar, aí sim vai poder fazer aquela viagem" ou continuar os estudos, namorar (e a lista é tão comprida) etc, etc, etc.....

Felizmente, chega um dia em que se percebe que basta (não consigo encontrar uma imagem que mostre melhor essa fase, do que fazer o papel do burrico correndo atrás da cenoura, sem nunca conseguir alcançá-la,) e que está na hora de tratar da vida. Tratar da vida quer dizer procurar aproveitar tudo o que se tem, se cuidar da melhor maneira possível, de maneira realista, com muito respeito por si mesmo, como o cidadão, o consumidor, a pessoa que somos.

Mais uma vez, o "mapa da mina" é aberto, os caminhos são muitos, dependem, é claro, do que cada um de nós quer da vida: mas o essencial é procurar, não ficar parado, trocar informações, endereços, descobrir recursos da comunidade, em uma palavra, batalhar.

Depois que uma médica me disse: "Ora, você, que tem paralisia cerebral de nascença, deve saber que não há nada mais que se possa fazer no seu caso", sem querer ela me mostrou o caminho das pedras. Por sorte, em vez de desistir, fui procurando e perguntando e cheguei a um novo método de tratamento (Bobath). Já bem adulta, graças a esse método, consegui lidar com o meu corpo e com a minha espasticidade de uma maneira inteiramente nova, e o que é melhor, sem dor (pela primeira vez, uma fisioterapeuta me disse: "Avise quando doer, eu solto sua perna"), e sem aquela sensação horrível de não estar colaborando, me esforçando como devia. Continuo espástica, mas parei de brigar com meu corpo, e de obrigá-lo a fazer o impossível. Hoje sou capaz de tomar banho praticamente em qualquer tipo de chuveiro, e valorizo isso, e outras pequenas vitórias, como digitar no computador, embora não tenha velocidade. Para um tetraplégico, que maravilha é voltar a comer sozinho, e como a vida muda! e o deficiente visual que toma o ônibus sozinho, pela primeira vez...

Sem precisar correr atrás da cenoura, se consegue ver com mais clareza a realidade que estava na nossa frente, a vida, com suas alegrias e obstáculos, os buracos e as pedras do caminho. Não é fácil, mas é bem melhor.

Thereza Christina Ferreira Stummer, paralisada cerebral, tradutora e vice-diretora executiva do CEDIPOD.


Volta

Home
O que é Cedipod? |  Inglês |  Francês |  Espanhol |  Informações Gerais

Legislação |  Estatísticas |  Documentos Internacionais |  Bibliografia

Notícias e Eventos |  Outros Sites |  Livro de Visitas